ROCK DE SOL A SOL

Festival DoSol, Natal

Rodovia, hotel, carne de sol em frente ao Morro do Careca, banho e Uber até o Cais da Ribeira – espaço que abrigou a 20ª edição do Festival DoSol. Pilotado pelos queridos Anderson Foca e Ana Morena, o DoSol é uma instituição da música potiguar. Concentrado no belo sábado de 30 de novembro, uma torrente de shows acontece simultaneamente em diversos palcos (cinco, até onde minha memória alcança). E aí descobrimos que, apesar do horário nobre e de dispormos de um set com espaçosos 50 minutos, iremos tocar no menorzinho, tradicionalmente uma casa de samba. Fama de maldito dá nisso aí.

A saída é a de sempre: transformar frustração em fúria. E fazer valer a experiência para cada um que entupiu o local do show. Se num primeiro momento eu pensei que as pessoas não conseguiriam ficar muito tempo confinadas ali dentro em virtude do calor e da pressão sonora, logo vi que estava enganado. O pico ficou realmente entupido, com presenças ilustres dos amigos do Zefirina Bomba e do MAEV, bem como de outras bandas – além, óbvio, do público em geral. Mesmo as janelas estavam apinhadas de gente do lado de fora, observando o caos que se instalou no Espaço Cultural Rosas na Cartola. O resultado foi um dos shows mais intensos de nossa trajetória e, provavelmente, o mais virulento da turnê. Passamos o resto da noite sendo abordados por pessoas do público, comentando o que viram. E agora Foca e Ana Morena estão obrigados a nos levar de novo ao DoSol, em um palco maior, para um estrago ainda maior.

Festival DoSol, Natal
Festival DoSol, Natal

Rock é a música dos excessos. Mal chegamos em Goiânia e descubro que Natal não teria sido o último show de 2024 – ano em que os Mechanics completaram três décadas de existência. Já estava agendado, no Shiva Alt-Bar, uma última apresentação, dia 12 de dezembro, dessa vez numa dobradinha de repertórios: Mechanics e Nirvanics (nosso tributo à seminal banda de Seattle, a Goiânia norte-americana). Antes disso, contudo, uma nova viagem para São Paulo, participando da CCXP com o lançamento do livro Arquivo Ota. Vou contar uma coisa para vocês: a megaconvenção de cultura nerd é mais cansativa que qualquer turnê – sem a diversão tresloucada que só o rock pode proporcionar.

No Shiva, encerramos os trabalhos do ano com o show mais extenso e extenuante da nossa história: 29 músicas, que preencheram carca de duas horas de apresentação. No dia seguinte, acordei afônico e absolutamente exausto. Ao menos não estava doente – algo que seria previsível depois de tanto tempo na estrada. O orgulho durou pouco. Contraí uma virose, ou algo do tipo. Coisas do rock.

Carcaça de molho, só retornamos aos palcos dia 05 de abril de 2025, com o último show relacionado ao projeto 30 ANOS DE MECHANICS.  É fundamental ressaltar que toda essa tour comemorativa de nossa longa trajetória só foi possível graças ao edital Circula Goiás, que conta com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal operacionalizados pelo Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura. E esta última apresentação se deu em um lugar mais que especial, o Centro de Referência da Juventude de Goiânia (CRJ).

Gosto de dizer que o CRJ é uma espécie de quilombo urbano, realizando um papel sociocultural imprescindível junto à comunidade. Daí que fazia todo sentido estarmos ali, colocando pela primeira vez o Rock num espaço já notável pelo hip-hop, rap, break e samba. Ao invés de um show exclusivo dos Mechanics, optamos por um verdadeiro festival de bandas: Leprosy, Sete Facas, Murder, Banana Bipolar e Leon completaram o line-up, garantindo uma memorável noite de diversão e diversidade. O ingresso? Um quilo de alimento.

Circulamos o Brasil, levamos o nome de Goiás para todos os cantos, garantimos espaço na mídia especializada, reencontramos velhos amigos, fizemos outros tantos. Não é exagero dizer que os Mechanics estão no embrião do mais legítimo e autoral Rock goiano. Trinta anos depois, ainda temos lenha pra queimar. O futuro? Está logo ali.